(Este é conto foi vencedor do Prêmio "Lado Escuro da Mente Humana", em 2009. Também publiquei na coluna que escrevo no Sobre Livros e, republico aqui a fim de iniciar um processo de organização de textos.)
Sobre As Vezes Que Me Matei
- Estou em pânico.
– Eu falei enquanto encarava o pequenino espelho que trazia comigo.
– Tenho personalidades múltiplas e…
- Tudo bem, já chega. – Ele fechou o jornal e falou no seu conhecido tom de seriedade. – Sou seu psiquiatra há anos. Sei de suas personalidades, sei de seus traumas, sei que ama ser várias pessoas em um só corpo, sei que cada pessoa que vive aí nesta cabeça confusa só existe para ajudar você a superar um desafio, conheço você melhor do que conheço meus filhos, minha mulher e, por tudo, conheço mais você que a mim mesmo. Quem está aqui agora? Henry, o sábio; Lourenço, o honesto; Fabian, o galante; Enckel, o Impetuoso; Rique, o dissimulado ou Simone, o afeminado? – O doutor dobrou o jornal, tentando conter a raiva.
Eu quis responder à pergunta, mas ele me interrompeu.
- Quieto Lourenço. Eu reconheceria você até de boca fechada. Por tudo que é mais sagrado. Será que não compreendes que a solução para o seu caso é a mesma que recomendo há anos.
Eu não contive as lágrimas.
- Não é mais assim doutor. Tudo mudou.
- Mudou? – Em anos, aquela era a primeira vez que o psiquiatra demonstrava interesse.
Falei com a voz trêmula. – Existe um assassino, um ser mesquinho, que só consegue pensar em si próprio. Seu egoísmo é tanto que ele quis tomar a minha mente inteira para ele.
- Está dizendo que uma das suas personalidades está matando as outras?
- Estou dizendo que segui seu conselho, fui até o sítio para ficar sozinho e tentar descobrir quem de fato sou eu. E lá estávamos cinco de nós que dividimos o mesmo cérebro. Henry, o sábio, preferiu não nos acompanhar. O senhor sabe como Henry detesta o contato com a natureza e…
- Prossiga. – O doutor mantinha os olhos arregalados.
- Estávamos bem, quando Fabian descobriu que haviam duas garotas num chalé próximo. Lésbicas que… Doutor, entenda, eu tentei apaziguar, mas Fabian achou por bem conhecer as vizinhas.
- Como assim? O que há de errado em permitir que Fabian se divirta?
- Foi Simone. Aquele descontrolado. Ele não bateu pé. Disse que não deveríamos nos envolver com ninguém. Ciúmes, sei lá. Eles brigaram.
- Quem?
- Fabian e Simone. Discutiram a noite inteira. Enckel, costuma ficar quieto nestas ocasiões. Mas Rique, que sabe tão bem usar as palavras, foi tão egoísta, não teve interesse em ajudar.
- E por que está tão angustiado? Foi só uma briga.
Eu coloquei os olhos entre as mãos e chorei de modo desesperado. As lágrimas verteram tão rápido que não consegui responder de imediato.
– Se acalme – O doutor repetia várias vezes. Finalmente, consegui falar.
- Simone apareceu morto. No banheiro. Fabian e eu assistíamos TV quando Enckel apareceu com as mãos repletas de sangue. Pobre rapaz, tentou salvar Simone como pôde, mas o pescoço do afeminado foi cortado com um estilete preciso. Não havia como estancar tanto sangue.
- Não está certo. – O doutor falava, olhando para o teto. – Finalmente uma das suas personalidades se impôs, mas essa violência é incomum. Talvez, você realmente tenha este assassino dentro de você. Não compreende? Precisa saber quem é o assassino para que possamos vence-lo. Eliminá-lo com remédios, é isso que vamos fazer. Me diga, quem matou Simone? Fale logo, Lourenço.
- Minha história continua, doutor.
O psiquiatra despejou o peso sobre a poltrona, prevendo que a noite seria longa.
Eu continuei.
- Inicialmente fiquei sem saber o que fazer. A coisa óbvia era culpar Fabian, afinal de contas ele havia discutido com Simone. Porém, lembre-se, ele estava comigo.
- Mas Simone poderia ter sido assassinado há horas.
- Exato, foi o que Rique disse assim que chegou. Com aquele jeito de falar que faz todo mundo ouvir, ele explicou que ninguém ali estava livre de ser o assassino. Afinal, Simone não era visto já há algum tempo. Resolvemos então agir com frieza. Não sairíamos do sítio até o assassino se revelar.
- E o que houve?
- Outra morte, doutor. – Eu já me sentia forte para as más notícias. – Não sei como, mas Enckel se afastou do grupo. Eu e Fabian ouvimos os gritos. Saímos à rua, e na escuridão, pouco vimos. Nos separamos: Fabian seguiu para a parte baixa do sítio, enquanto eu permanecia no entorno da casa.
- O que aconteceu?
- Eu encontrei o corpo. Enckel, o impetuoso, tinha furos nos pulmões e no coração. Era o mesmo estilete, com certeza. Gritei por Fabian, o galante, mas não foi ele quem apareceu. Foi Rique, o dissimulado.
- Eu já desconfiava dele. Precisamos tratar sua cabeça, vamos eliminar essa personalidade.
- Não doutor. Minha história não acabou.
- Rique não usou de seu verbo fácil. Sorriu com o canto da boca e exibiu o estilete manchado de sangue. Eu não tive escolha. Lutamos como loucos. Eu não queria, mas ele já havia matado dois de nós, eu precisava acabar com aquele sujeito egoísta.
- Fico feliz que tenha acabado.
- Não acabou doutor.
- Eu não entendo. – O psiquiatra agiu como se as peças não estivessem encaixando.
– Rique, o assassino está morto. Fabian está bem? Você está bem. Acabou.
- Não foi tão simples. Quando Fabian chegou, achou que eu fosse o assassino. Tive que defender minha vida. – As lágrimas agora não apareceram em minha face. A tristeza cedeu lugar à frieza da lógica.
- Lourenço? – O psiquiatra se pôs em pé. – Eu o conheço. Você jamais mataria um inocente. Conheço você desde a infância rapaz. Algo está errado.
Foi neste momento que falhei.
Deixei escapar um sorriso pelo canto da boca. Um sorriso todo meu. Um sorriso que Lourenço jamais seria capaz.
- Doutor, o senhor realmente conhecia o Lourenço muito bem. – Eu respondi, concentrado como um gato antes do ataque. – Mas o senhor jamais conseguiu compreender até onde eu sou capaz de ir.
- Rique. Você venceu a luta com Lourenço. – O psiquiatra tentou fugir, mas tropeçou na própria cadeira. Já no chão, manifestou sua última análise. – Só você seria capaz fingir ser quem não é.
- Exatamente. – Eu virei o espelho para a face do doutor, para que ele visse um rosto idêntico ao meu. Peguei o estilete do bolso e me despedi. – Henry, você foi sábio quando não foi ao sítio, mas hoje não foi tão esperto. Agora, deixe-me só.

1 comment:
legal sua historia
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