(Sem título, por hora)
A velha árvore barbuda escondia a lua. Os galhos finos dedilhavam a vidraça. E a menina se revirava em pesadelos.
Os gatos trazem notícias dos mortos. Os egípcios sabiam.
A menina também.
E quando o bichano cinza passou a pequena fresta na janela, ela sentiu os próprios olhos revirarem. Aprofundou-se ainda mais em seu confuso sono. Palavras velhas foram ditas. Mas as várias vozes arranhadas em sua garganta já não eram da menina. Eram restos de pensamentos mórbidos, notícias de outra verve. E eram muitos a falar. Aqueles que partiram falavam feito padres.
E falavam juntos. Aos atropelos. Trôpegos. Ansiosos pela voz ouvida entre os vivos. Havia tanto a dizer. Tantos a amaldiçoar. Desde sempre, aqueles que morrem carregados de raiva querem ser ouvidos. E estes traziam toda raiva em suas vozes.
Umas sobre outras, vozes falecidas arruinavam a noite.
O gato ronronou enquanto enfiava-se por debaixo da coberta.
A velha árvore outra vez sacudiu-se ao gozo do vento. Os dedos finos perderam a elegância do toque. A vidraça se partiu.
O estardalhaço acordou a casa inteira.
A irmã maior foi a primeira a chegar ao quarto da menina. Abriu a porta e seu pânico fez-se um grito agudo.
Gatos invadiam o cômodo. Pardos. Leves. Numerosos. Desciam pelos galhos da velha árvore. Um a um rompiam a fronteira da janela.
Pardos. Leves. Trazem notícias dos mortos. Os egípcios sabiam.
A menina também.
E naquela noite muito havia para ser dito.
E naquela noite muito havia para ser dito.
(Ilustrações desse blog. De Suzo Bianco.)


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